Outono / Inverno 2008

por .erika horiguchi  

 

02.Nov.2007

Começou ! 
 

Pra quem vive no mundinho fashion e trabalha com isso sabe do que eu estou falando.

Foi dada a largada das coleções de inverno de 2008.

 

É uma delícia começar uma nova estação; pesquisa de tendências, silhuetas, materiais novos: tecidos, aviamentos...

 

Mas inverno no Brasil é sempre uma dorzinha de cabeça a mais na já conturbada cabeça de um estilista, desenvolver uma coleção inteira de inverno para um país onde ele é resumido a uma semana ou duas de “frio” é um trabalho complicado.

 

Estão dizendo por aí que esse inverno é a “despedida do casaco”; devido ao então comentado “aquecimento global”, estilistas e fashionistas do mundo estão apostando em modelos com tecidos leves ou casacos com mangas curtas. Uma boa idéia; mas comercialmente, funciona?

 

Casacos em A, como os clássicos casacos usados por Jackie O nos anos 60, com mangas em diversos tamanhos, compridas, 7/8, ¾, curtas, “copinho”.

Aparecem também os casacos com a cintura marcada e casacos com cortes retos, mais parecidos com os paletós masculinos. Essa brincadeira da apropriação do vestuário masculino vem dos anos 40, onde as mulheres, sem dinheiro por causa da situação econômica do período de Guerra usavam as roupas dos maridos para trabalhar, usavam seus ternos amplos, e os ajustavam ao corpo com um cinto, marcando a cintura e deixando as roupas com um ar mais feminino. Nesse inverno, a mulher também se apropria do terno. O terno na verdade é composto pelo paletó, colete e calça. Mas aqui, vale usar tudo separado, e misturado, o que fica bem mais interessante.

 

Vestidos, de todas as formas, “A”, “sereia” (ajustados no corpo, abrindo depois do quadril), com recorte império aliás, me permitam um parêntese; recorte império já é um clássico em todas as estações, desde que as batas invadiram o guarda-roupa feminino e conquistaram a preferência do público consumidor.

Os comprimentos vão dos minis, até a altura abaixo do joelho.

 

Uma tendência forte para as calças de alfatiataria são as chamadas “wide” pants, as pantalonas; e as calças de montaria, com volume na altura dos quadris e pernas curtas e justas, mas o que se vê nas lojas e nas ruas são um mix de formas e comprimentos, continuam ainda a skinny e as calças “editor´s” (calças de alfaiataria com as pernas reta).

Os comprimentos são dos mais variados; shorts, bermudas, capris, e compridas. Tem calças para todos os gostos. Mas também temos as saias; dessa vez, as saias lápis chegaram para ficar, com cintura alta ou não.

Numa estação onde a alfaiataria é destaque, a camisaria ganha destaque.

Desde às camisas com corte clássico às camisas românticas, com nervuras, pregas, golas de ponta redonda, manguinhas bufantes e trabalhos de dobraduras nos tecidos.

 

As cores vão desde o preto (muito preto) e marrom ao cinza. Para quebrar a enxurrada de tons escuros, que são sempre presentes no inverno, muito branco, e muitas cores vibrantes.

Continuam o Azul Klein; pink, fúcsia, amarelo (mais puxados para o ocre), verdes (mais escuros e puxados para o esmeralda e verdes azulados), laranjas e vermelhos; e uma coisa eu digo, as mulheres latinas, fazem jus à fama de mulheres “calientes”, o vermelho sempre funciona muito bem no mercado brasileiro.

 

Os tecidos ora são leves, ora são pesados, mas a indústria têxtil apostou no beneficiamento desses tecidos.

Muito couro e peles, naturais ou não; tecidos empapelados, resinados, com aplicação de foil e paetês, os chamados “all over”; malhas (da viscolycra, passando pelos jerseys de poliéster, poliamida, viscose às malhas de seda pura) e a volta do ponto roma (malha pesada, que funciona bem na confecção de calças de alfaiataria, casacos e vestidos) e a “clidélia”, tecido de viscose, de textura creponada; perguntem para a sua avó, que ela certamente conhece esse tecido.

 

Brilho já é um clássico na moda; e mais uma vez é vedete da estação; prateados, dourados, cobreados e envernizados nas roupas e nos acessórios.

 

Alguns estilistas, como apostaram e tiveram influência medievais, enchendo as roupas e os acessórios de metais e tachas de vários tamanhos e formatos. O visual lembra os cavalheiros medievais da época das Cruzadas, mas lembram também os Punks dos anos 80.

 

O reinado das maxi bolsas parece ter chegado ao fim (alegria das que já estavam com a coluna totalmente fora de lugar pelo peso dessas bolsa enormes, tristeza para fãs dos “guarda-tudo” como eu). As bolsas aparecem em proporções menores, muitas vezes, bem menores mesmo. As bolsas-carteiras, continuam em alta.

 

As ankle boots permanecem firmes e fortes no mercado americano e europeu, mas agora elas ganharam uma irmã mais novinha, as “ankle booties”, elas são inspiradas no clássico modelo masculino Oxford; com cano mais baixo, e amarração na frente.

 

As estampas continuam em alta: listras, xadrezes, florais, geométricos,  psicodélicos (esse ano comemoram-se os 60 anos da marca italiana Pucci, a marca que se tornou famosa por suas estampas psicodélicas cheia de cores e formas); manchas, degradés de cores, e muitos bichos.

Mas o mais interessante foi a mistura de estampas étnicas que a Balenciaga apresentou na sua coleção de inverno. Podem apostar.

 

Inverno é sempre uma delícia de se trabalhar e de se consumir. Pena que no nosso país seja tão curto.

 

As opções são várias; uma gama extensa de temas, influências, e tendências.

Vale a pena pesquisar, andar pelas ruas, ver o que está se usando e com todo o apanhado de informações, adaptar esse mix de tendências no seu próprio estilo.

 

Aposte em peças clássicas; mas pelo-amor-de-deus; OUSE. É importante ousar, é pra isso que existe a moda, prá ser usada, prá fazer de você um indivíduo único e diferente dessa pessoa que está aí do seu lado. Ninguém é igual a ninguém na maneira de pensar, de viver e encarar os acontecimentos da vida; não precisamos e não devemos ser iguais na maneira de se vestir também.

 

 

 

 Vestido de festa

por .erika horiguchi  

 

O drama de uma garota "moderna e descolada" (no caso eu) em busca de um vestido de festa.

 

Fui convidada para um casamento;

 

Um parêntese: se você ultimamente anda recebendo muitos convites de casamentos de amigos próximos, é um sinal de que você está envelhecendo e se você é solteiro, a situação piora; é sinal de que além de velho, você está ficando para "titio", ou "titia".

No meu caso, esses convites não têm sido tão corriqueiros assim, seria até um bom sinal; mas todos sabem que hoje em dia não se casa mais, se "ajunta"; como diz o povo.

 

Enfim.

 

O fato é;

Com que roupa ir?

 

Imagine uma pessoa que trabalha todos os dias da semana de calça jeans, camiseta e tênis all star (que no verão são substuídas por sandálias havaianas) imagine que essa pessoa não deve ter muitas opções de vestidos para se ir numa festa de casamento.

Eu até tenho vestidos lindos, que devo ter usado uma ou duas vezes na minha vida, mas olho prá eles todos os dias quando abro meu armário, já enjoei de todos.

 

 

Queria um vestido de festa bonito.

Eu eu não estou me referindo aos vestidos longos de chiffon de poliéster bordados de ponta a ponta com canutilhos, vidrilhos, paetês e o diabo-a-quatro; que particularmente acho que deveriam inexistir de toda a extensão do planeta terra.

Estou me referindo a vestidos simples e bem arrumados. Modernos, divertidos, sem ter aquela cara de gente séria demais e chique demais, que eu não sou.

 

Pensei em curtos, mini mesmo, prá usar com uma calça de alfaiataria de corte reto ou uma skinny. Talvez algo linha "A" que é tendência na próxima estação. Ou um clássico com recorte império (minha gente; recorte império já virou um clássico né.) Alguma estampa grande, ou retrô (aquelas que parecem cortina de banheiro da vó), estampa gravataria, pequenininha de tudo; pensei em procurar alguma coisa DKNY, em bloco de cores, mistura de pink, azul klein, preto, amarelo absinto e dourado; bloco de cores é tendência meu povo. Embora eu corte o meu dedo mindinho se isso pegar aqui no Brasil.

 

Sai à procura do vestido-A-ou-recorte-império-estampado-liso-ou-em-bloco-de-cores.

(Prá você ver quão confusa e atormentada pode ser a cabeça de uma mulher que sai às compras).

O problema de se trabalhar com moda é esse; estou desenvolvendo verão, mas as lojas estão vendendo inverno.

Todas as vitrines estavam em tons de preto-cinza-roxo-verde.

Cinza não. Não aguento mais ver cinza na minha frente. A-mo. Mas já deu né. Cores! Quero cores!

 

Rodei o shopping center inteiro. Nem na minha querida Zara encontrei nada que me agradasse. E olha que isso deveria ser registrado nos autos; eu entrar na Zara e não gostar de nada? Isso nunca tinha acontecido na minha vida. (Pra dizer que eu não gostei de nada, achei um tênis prateado lindo, mas não tinha meu número)

 

Lembrei de uma loja bacana que conheço há tempos.

Lá eu não encontrei um, mas vários vestidos lindos.

Algodões estampados, seda, tweed mistos, contraste de cores, bordados, combinação de estampas e de materiais; tudo muito divertido, e de bom gosto.

E sofri pra escolher um só, tanto que acabei comprando dois. E me sinto totalmente satisfeita com as minhas novas aquisições.

 

Elements

Rua Aimorés, 98 - Bom Retiro – São Paulo, SP

 

A loja vende somente para o Atacado, de segunda à sexta; mas tem a versão varejo-chique nos Jardins, na Rua da Consolação, quase esquina com a Oscar Freire, do lado da Miss Sixty.

 

 

 

 Futurismo retrô
por .erika horiguchi  

Eu trabalho uma confecção, desenvolvo modelos, recebo fornecedores, escolho cores e tecidos, e stampas (aliás, sou uma apaixonada por estampas, embora não as use). Daí que outro dia fui visitar um fornecedor, e na sala onde eu estava haviam 4 painéis que apresentavam os 4 temas das tendências do próximo verão. Pra mim isso é tão normal e corriqueiro, que na maioria das vezes não dá tempo e muito menos vontade de parar e refletir sobre esses temas. Mas “Futurismo Retrô” me fez parar para pensar.

O que seria um futuro retrô?

Na minha cabeça, eu já tenho essa imagem formada; um dos temas do próximo verão é o tal Futurismo Retrô, que na verdade se remete à onda Futurista dos anos 60; aquela coisa que foi influenciada pela corrida espacial entre EUA e URSS, etc, etc, etc...

As formas são lindas, limpas, as cores e as estampas idem, muitos prateados, dourados, e acessórios de vinil e plástico. Os looks são ora “fans-de-beatles-alucinadas-em-seus-vestidinhos-linha-A” e outrora uma coisa mais ousada, tipo “Barbarella”.

Enfim, tudo muito divertido e mimoso, mas totalmente retrô. 

E onde entra então o Futuro?

Depois dos anos 90 a indústria da moda não criou nada de novo. A partir de então tudo o que foi feito e criado não se passaram de releituras das décadas passadas. 

E atualmente se vê de tudo. A galerinha rockabilly que celebra os anos 50, os moderninhos que agora festejam os 60. Os hippies e as patricinhas que sempre adooooram o folk e o charme do anos 70, e os intermináveis anos 80; pois é. Esses aí parecem que não vão terminar nunca. 

É desesperador saber que depois da moda passar por todos esses anos, chegamos aos anos 90; e que já fizemos uma releitura do “grunge-style”, e quando há esperança de algo novo aparecer.... 

 

We´re back to the sixties. 

Não, eu não estou reclamando, de maneira alguma. Os anos 60 talvez sejam os meus preferidos; (eu disse talvez); e estou feliz com meus novos vestidos linha A, meus sapatos de bico redondo que eu sempre adorei tanto e com essa onda de franjinhas (ontem me deu a louca e eu quase cortei a minha).

Mas viver de retrospectiva, de lembranças e de coisas que já vimos, e já vivemos num mundo que anda tão rápido e se atualiza a cada segundo, parece ser desesperador. 

Pelo menos para mim é desesperador.

Quantos anos mais serão  precisos para termos roupas e carros bacanas iguais aos Jetsons?


.erika horiguchi



INTRODUÇÃO
 Para que moda ?
 Por que moda ?  
 por .erika horiguchi
                             

 

 

Desde muito nova me interessei por desenho, costumo dizer que desenho praticamente “desde que nasci”.

 

O fato é que em toda a minha infância estive no meio de lápis, papéis, tintas e tecidos. Minha avó, uma costureira, minha mãe envolvida com artesanato e trabalhos manuais; meu pai desenhava muito bem e sempre sentava comigo à mesa e desenhando tudo o que eu pedia. Aquilo pra mim era algo mágico: com uma caneta e uma folha de papel você podia inventar um mundo.

 

Na época do colégio, ao invés de prestar atenção às aulas, eu desenhava, costurava roupinhas das minhas bonecas e a minha maior diversão era passar tardes inteiras trocando e destrocando as roupas (e fazer combinar os sapatos e as bolsas).

 

Assim, acabei me interessando por moda como objeto de estudo e trabalho, fascinada com o efeito que ela exerce sobre as pessoas, sua força como forma de expressão artística e pelas proporções que afeta a sociedade.

 

A roupa, além de exercer sua função de cobrir e proteger, é um “outdoor”, um cartão de visita; descreve claramente qual o papel do indivíduo na sociedade: sua profissão, seus gostos, até mesmo que filmes assiste, que músicas ouve, que lugares freqüenta e com quem se relaciona. Conseqüentemente acaba projetando uma imagem do “personagem social”, do que ele É e do que DESEJA SER e isso se relaciona diretamente com a auto-estima das pessoas.

 

Nesse “jogo” todo mundo pode brincar, e assumir o papel que quiser: musa, rockstar, cowboy, astronauta; é o que vemos nos desfiles de carnaval e bailes à fantasia, acontecendo em nosso dia-a-dia. Ninguém pode negar que quando temos algum evento importante ou um encontro - e queremos impressionar, acabamos por escolher a dedo a roupa que iremos vestir. Muitas vezes o traje a ser usado em certa ocasião é pensado e planejado por dias e dias e até meses antes do evento.

 

São essas particularidades que fazem da moda algo tão interessante e atraente. Essas mesmas particularidades que fazem com que a moda seja um enigma. Descobrir o que é tendência, “mastigá-la” e “digeri-la” para o grande público; e ainda - acertar em cheio o que vai ser o “must have” da estação é o árduo trabalho de quem trabalha com moda. Designers, jornalistas, stylists, consultores de moda, formadores de opinião, fashionistas em geral.

 

Ditar moda hoje, onde todo mundo tem acesso a informação e milhares de fontes, um mundo inteiro de opções e possibilidades incríveis pelo computador é uma tarefa especialmente difícil. Apesar disso tudo, as pessoas parecem ter medo e até preconceito com “O NOVO”.

 

A moda sempre teve esse difícil componente de sedução (quase irracional) e cumpre o papel de construir a imagem pessoal, criar um personagem, inserir um indivíduo em um grupo, “gueto”, tribo; tornar um produto qualquer em objeto de desejo. Olhando para o passado –  sempre nos pegamos rindo sobre esses objetos do desejo – como eram importantes na época; como eles dataram em nossas memórias um período de nossas vidas. Por exemplo: Os mullets! (hahahahahaha) em algum momento da metade dos anos 80, quem não tinha mullet estava por fora, era “careta”. Como vamos explicar isso para a posteridade? MODA!

 

O mundo da moda não é só glamour, por trás de tanto “poder de influência”, existe um vasto trabalho de pesquisa de comportamento, materiais, cores, formas, recursos, e uma infinidade de outras coisas que estão interligadas diretamente e indiretamente ao mundo da moda, como música, cinema, artes plásticas, esportes, etc...

 

O dilema do designer às vezes é criar roupas para pessoas que muitas vezes são o seu avesso, com estilos, gostos e preferências diferentes - além de ter que correr contra o tempo (são 2 coleções durante o ano, e acreditem, o tempo é muito curto) - e conciliar todas as tendências e informações com a necessidade constante de renovação exigida por um consumidor faminto por novidades.

 

Portanto, ao contrário do que pensam não cabe a nós - estilistas, criadores, formadores de opinião - ditar o que é o belo. Existem coisas que caem no gosto do consumidor e muitas vezes (na maioria delas) nem sabemos o porquê.

 

Isso faz a diferença do artista para o estilista; criamos para multiplicar. A arte que produzimos deve ser obrigatoriamente consumível.

 

A maioria das pessoas ainda se chocam durante alguns desfiles quando se deparam com os looks do estilista na passarela - e sempre dizem algo como: "Quem vai usar isso ?" - o que a elas não entendem (e nenhum veículo de comunicação se preocupa em explicar) é que na passarela o estilista deixa seu lado “criador” fluir. Para depois transformar todo o conceito em produtos usáveis e colocar no mercado.

 

Infelizmente, a moda caminha em passos curtos, não existem grandes mudanças num curto período de tempo; tanto que estudamos sua história dividida em décadas. Particularmente, acho que a moda deveria caminhar a passos largos, seria um exercício muito mais divertido, produtivo e estimulante.

 


.erika horiguchi

erikahoriguchi@gmail.com
(estilista)